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a24

"Todos elogiam o sonho, que é o descansar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos"

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"Todos elogiam o sonho, que é o descansar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos"

“O esperado mantém-nos fortes, firmes e em pé. O inesperado torna-nos frágeis e propõe recomeços”.

O grande problema que envolve as grandes decepções amorosas, é a péssima mania que temos de “ajudar” o destino. Somos impacientes, imediatistas. Queremos tudo para ontem e não sabemos esperar. Porém, o amor exige calmaria, paz e tempo para acontecer e, assim como a borboleta só sai do casulo quando está pronta para voar, o amor só aparece quando estamos maduros para merecê-lo.

Não é fácil esperar, nunca foi. Amor exige tempo e eu sei o peso dessa palavra para quem já está cansado de sofrer. É difícil entender que o tempo que habita em nós não é o mesmo das coisas. Demoramos para compreender que a vida segue o próprio roteiro e tentamos, a todo custo, tomar as rédeas da própria vida. Em partes, isso é possível. Em partes, não! Nos momentos solitários é preciso entender que a solidão que nos magoa é a mesma que nos impulsiona ao autoconhecimento.

 

Tudo, absolutamente tudo, acontece como deve acontecer e de uma forma que não sabemos. Dessa surpresa é feita a vida. Do inesperado. Das possibilidades que cada dia oferece, sem que possamos ver ou interferir. Machado de Assis dizia que “O esperado  mantém-nos fortes, firmes e em pé. O inesperado  torna-nos frágeis e propõe recomeços”.

Não existe essa de “pessoa certa na hora errada”. Inventamos isso para justificar nossas escolhas erradas e para tentar convencer a própria consciência de que a culpa não é nossa, é da vida. O que existe é a pessoa certa, na hora certa e no local certo.

João Guimarães Rosa, no conto “O espelho”, do livro ‘Primeiras estórias’, afirmava que “quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo” e acredito que, em nossa vida sentimental, seja bem assim. Não sabemos se vamos conhecer o amor das nossas vidas na fila do pão, na porta da nossa casa ou no casamento da amiga, mas sabemos que, um dia, ele acontecerá.

 

Por hoje, simplesmente, pare de procurar pelo amor. Isso mesmo, pare! Pare de colocar, em cada beijo, as expectativas de um amor eterno. Pare de implorar atenção de quem nunca quis você. Pare de ligar. Pare de achar que sua felicidade está nas mãos do outro.

O amor da sua vida não está em toda esquina, no fundo de um copo de bebida, nem em uma pista de dança. O amor da sua vida irá chegar de repente, quando você estiver distraído e quando já tiver dito, milhões de vezes, que “não acredita mais no amor”.

Tranquilize-se e deixe que o amor te enconte. O que estiver destinado, a vida se encarregará de trazer.

 

...

 

Loving you is second nature to me

 

Birds In The Cage

 

Stranger than madness, the exile of night
The slow steady turning of that lonely flight
I gotta get up face the morning, sweet daylight again
Surrender to knowing, my faded to pretend

...

 

 

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?

Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade

 — com Adriana Benez.

Before Sunset

 

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...

 

Só um Mundo de Amor pode Durar a Vida Inteira

 

 

 

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. 

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixonade verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. 

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. 

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. 
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? 

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. 

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. 

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. 
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso' 

...

 

 

Os amigos têm de ser inúteis. Isto é, bastarem só por existir e, maravilhosamente, sobrarem-nos na alma só por quem e como são. O porquê, o onde e o quando não interessam. A amizade não tem ponto de partida, nem percurso, nem objectivo. É impossível lembrarmo-nos de como é que nos tornámos amigos de alguém ou pensarmos no futuro que vamos ter. 
A glória da amizade é ser apenas presente. É por isso que dura para sempre; porque não contém expectativas nem planos nem ansiedade. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Explicações de Português' 

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