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a24

"Todos elogiam o sonho, que é o descansar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos"

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"Todos elogiam o sonho, que é o descansar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos"

ORAÇÃO A MIM MESMA

29.03.13, a24

Que eu me permita olhar e escutar e sonhar mais.

Falar menos.

Chorar menos.

Ver nos olhos de quem me vê a admiração que eles me têm e não a inveja que penso que têm.

Escutar com meus ouvidos atentos e minha boca estática, as palavras que se fazem gestos e os gestos que se fazem palavras.

Permitir sempre escutar aquilo que eu não tenho me permitido escutar.

Saber realizar os sonhos que nascem em mim e por mim e comigo morrem por eu não os saber sonhos.

Então, que eu possa viver os sonhos possíveis e os impossíveis; aqueles que morrem e ressuscitam a cada novo fruto, a cada nova flor, a cada novo calor, a cada nova geada, a cada novo dia.

Que eu possa sonhar o ar, sonhar o mar, sonhar o amar, sonhar o amalgamar.

Que eu me permita o silêncio das formas, dos movimentos, do impossível, da imensidão de toda profundeza.

Que eu possa substituir minhas palavras pelo toque, pelo sentir, pelo compreender, pelo segredo das coisas mais raras, pela oração mental (aquela que a alma cria e que só ela, alma, ouve e só ela, alma, responde).

Que eu saiba dimensionar o calor, experimentar a forma, vislumbrar as curvas, desenhar as retas, e aprender o sabor da exuberância que se mostra nas pequenas manifestações da vida.

Que eu saiba reproduzir na alma a imagem que entra pelos meus olhos fazendo-me parte suprema da natureza, criando-me e recriando-me a cada instante.

Que eu possa chorar menos de tristeza e mais de contentamentos.

Que meu choro não seja em vão, que em vão não sejam minhas dúvidas.

Que eu saiba perder meus caminhos mas saiba recuperar meus destinos com dignidade.

Que eu não tenha medo de nada, principalmente de mim mesmo: - Que eu não tenha medo de meus medos!

Que eu adormeça toda vez que for derramar lágrimas inúteis, e desperte com o coração cheio de esperanças.

Que eu faça de mim um homem sereno dentro de minha própria turbulência, sábio dentro de meus limites pequenos e inexatos, humilde diante de minhas grandezas tolas e ingênuas (que eu me mostre o quanto são pequenas minhas grandezas e o quanto é valiosa minha pequenez).

Que eu me permita ser mãe, ser pai, e, se for preciso, ser órfão.

Permita-me eu ensinar o pouco que sei e aprender o muito que não sei, traduzir o que os mestres ensinaram e compreender a alegria com que os simples traduzem suas experiências; respeitar incondicionalmente o ser; o ser por si só, por mais nada que possa ter além de sua essência, auxiliar a solidão de quem chegou, render-me ao motivo de quem partiu e aceitar a saudade de quem ficou.

Que eu possa amar e ser amado.

Que eu possa amar mesmo sem ser amado, fazer gentilezas quando recebo carinhos; fazer carinhos mesmo quando não recebo gentilezas.

Que eu jamais fique só, mesmo quando eu me queira só.

Amém.

 

(Oswaldo Antônio Begiato)

Uma tarde de Março

21.03.13, a24
Contar-te-ei  da tez de uma tarde de março; Das horas descobertas pela tépida brisa Que acaricia nossas almas a deriva, Dizendo-nos  da  paz sem palavras. ... Contar-te-ei dos pedaços De um tempo onipresente , Das barreiras que se rompem Em estilhaços De ontem Nos olhos do presente. Contar-te-ei das lembranças Que dessangram lágrimas: Reflexos de uma dor que punge e aflige, De uma dor necessária Tanto quanto o ar que respiramos. Contar-te-ei de uma ave chamada vida Que rasga  um céu sem rei , sem paradigma... Traçando um ponto de fuga por entre lua e sol Para a noite que se derrama sobre o arrebol.

...

18.03.13, a24

Esta noite
Não há matéria que nos acoite.

A maçã de vermelho fogo
Pulsa por entre meus dedos
Perdida em segredos
Que se entregam a meus afagos
E falam a meus sentidos .

Seu ventre queima
E por entre
O hálito e o fogo
Um mar explode.

Meus lábios
Se perdem em seu desejo.
Meus sonhos singram
Pelo horizonte perfeito
De sua silhueta.

Sinto a maçã em minhas mãos:
Signo do que nos aflora
E transborda na ânsia desta hora.

A fruta esfinge do pecado,
Levemente ferida pelas incisais vorazes,
Revela a cumplicidade do ato
E guarda mais do que o relato
Das palavras cegamente incapazes.

Esta noite
Não sou mais eu:
Não mais me pertenço...
Agora sou você,
Sou seu mundo,
Algo que se resvala no tempo
E perde-se no infinito.

Vida, poesia e reticência

18.03.13, a24

 

Entre o delírio e o sonho necessário
Está toda a razão
Imprescindível à sobrevivência:
Algumas moedas de bom senso
E a garantia do passo seguinte.
Tudo que sobra é desperdício de intelecto.

Dá-me seus dragões 
Que os transformarei em moinhos
E o vento
Será alimento
-talvez enredo-
Para o amanhã.


Uns chamarão 
De loucura,
Outros de inconsequência ...

Eu chamo apenas 
De vida,poesia e reticência.

 

...

17.03.13, a24

...

16.03.13, a24

O Primeiro Dia

16.03.13, a24

 

Algumas palavras se perdem 
Quando o sonho invade 
O território do factível. 

Carrego no bolso 
Vocábulos esféricos 
De superfície instável 
E essência vária. 

O asfalto me observa 
Com a mesma pretensão 
Com a qual as crianças 
Dão formas 
às nuvens. 

Ruas me atravessam 
E desconhecem as asas 
De minha alma: 
O óbvio me perdeu 
Pela ausência de sombras e pegadas. 

Teu sorriso, entre nuvens, 
Rege meu itinerário: 
Traço que risco 
De olhos cerrados e coração desnudo. 

Talvez a realidade exija resgate 
Pela peça essencial de sua engrenagem, 
Mas não te preocupes, 
Pois as palavras nascidas da alma 
Escorrem das mãos da realidade 
E não sabem descansar sob 
Olhos desacreditados. 

Por isso viajo sem pegadas, 
Apenas nuvens, estrelas, teu sorriso 
E a possibilidade do improvável 
Suspenso pelas intangíveis 
Cordas da liberdade. 

O amanhã? 
Que venha o amanhã 
Com seu arsenal de cores e sabores. 
Para ele criarei novas palavras 
E tecerei novos sonhos.